terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Metá Metá - M M 3 (Álbum) [iTunes Match]

  
Lançamento: 25 de mai de 2016

Qualidade: iTunes Match + MP3

Gênero(s): Alternativo

Gravador/Selo: Laboratório Fantasma


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NOTAS DO EDITOR

“MM3”, o terceiro álbum do Metá Metá, acabou de levar o prêmio de melhor álbum do ano de 2016 da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes).

Em um cantinho mais discreto, Sasha Frere-Jones, crítico de música pop com passagem por diversos veículos, em especial a New Yorker por mais de uma década, classificou o álbum como um de seus favoritos do ano. Em uma lista de 90 álbuns, ele marca cerca de 20 discos como excepcionais e nesta seleção da seleção estão “MM3” e os mais recentes de Bowie, Radiohead, Kendrick Lamar, entre outros artistas renomados.
Não duvide que logo mais o álbum apareça em outras premiações e listas, sejam elas gringas ou nacionais.

Pensando ainda na lista do Sasha Frere-Jones, é difícil imaginar outro disco ali produzido nas mesmas condições de “MM3”. Foram apenas três dias no Red Bull Studio São Paulo, repertório bem ensaiado, nada de overdub, todo mundo tocando junto ao mesmo tempo.
Thiago França, sax da banda, lista dois motivos que explicam o tempo curto em estúdio: um é circunstancial, tempo e grana disponíveis, e outro é artístico, o trio é formado por músicos que cresceram no palco. Ou eles tocam tudo junto e ao vivo ou a coisa não anda no estúdio.
“A gente não sabe fazer de outro jeito”, afirma Thiago. Sendo assim, como nos dois trabalho anteriores, o disco vira um instantâneo do momento atual de Thiago, Juçara Marçal e Kiko Dinucci sem direito a Photoshop, outra escolha artística do trio.

E a foto da vez mostra caos, destruição, personagens sombrios, desencontros. Feito no meio da crise do impeachment, Thiago conta que o trio passou muitas sessões de composição mais conversando sobre o momento de tensão no país do que propriamente tocando.

Sem investir no literal nas letras, o tom do álbum fica evidente na música - mais densa, mais orgânica e mais imprevisível do que nos álbuns anteriores. Aliás, é nesse ponto que vale notar uma das novidades de "MM3": Marcelo Cabral (baixo) e Sérgio Machado (baterista), que sempre complementam a música do trio, participaram pela primeira vez da criação dos arranjos desde o príncipio.

Todos esse pontos (e muitos outros) são tratados no faixa a faixa que fizemos com Thiago França. É hora de desbravar o álbum, dê play no disco e boa leitura.

--FAIXA A FAIXA--

Três Amigos

"Originalmente ela é de um projeto que eu tenho com o Sérgio Machado, um duo nosso, fizemos um disco, inclusive, que tá em processo de pós-produção. Era uma música que tava ali e quando começou o processo do “MM3” eu percebi que poderia se encaixar legal no disco e mandei pro Rodrigo Campos fazer a letra.
Eu acho legal, quem não conhece a gente tanto não identifica, mas aconteça o que acontecer a gente é muito do samba, por mais que venha um noise, que venham outras sonoridades, formas, texturas, estéticas, no meio da letra pinta um agogô, um negócio de carnaval ali no meio, é uma referência que não tem muito como fugir.
Acho também que a letra tem uma coisa de prenúncio, o disco foi feito em momento muito conturbado. Essa sensação pairou muito sobre a feitura do disco. Teve muito isso. A tensão tava muito voltada. E acho que mais que a coisa política relacionada diretamente ao voto, porque o negócio do impeachment tem um discurso que passa muito pela coisa do voto, falaram muito nisso, acho que a coisa política mais grave é isso que ameaça as conquistas humanitárias, sociais, essa coisa de você ter um levante de pessoas que assumidamente declaram ódio a parcelas específicas da sociedade.
Acho que a coisa da letra, a gente tenta nunca ser literal demais, a gente acha que isso não é tão legal, você pode acabar ficando datado, restringindo a ser somente uma coisa sem dar espaço pra uma pessoa ouvir aquilo em um outro dia e encontrar uma outra coisa. Mas tem isso, essa sensação de cerceamento ideológico - "São três amigos para matar/Mais doze santos pra apedrejar" - isso em todas as áreas, esquerda, direita, a gente tá vivendo um momento de intolerância mesmo até de quem tem o discurso mais social, humanista. Essas pessoas, às vezes, também tem uma posição muito violenta, agressiva e a coisa tá se consolidando muito em pequenos nichos por conta dessa falta de diálogo toda. Foi uma coisa que o Rodrigo captou do momento e colocou na letra."

"Angouleme"

Essa começou como poesia. A Juçara escreveu o texto todo e aí a gente ficou trabalhando ela, pensando, a gente ficou testando umas coisas. Eu encontrei um princípio de melodia, o Kiko terminou. Mas era engraçado porque a versão original era quase uma bossa nova, ela era lenta. No estúdio, o Serginho encontrou uma levada, aí eu ouvi e falei: "Acelera um pouquinho, um pouquinho mais, um pouquinho mais...". Aí ele: "Calma, bicho. Já virou outra coisa". Eu falei: "Bicho, mas não é coisa nenhum ainda, não virou outra coisa, não é nada". Foi indo e fez sentido com a letra violenta, agressiva. O fato dela ser curtinha, tem essa coisa do hardcore mesmo, uma música bem pancada e curtinha."

"Imagem do Amor"

"A gente tem feito bastante isso de deixar os arranjos bem pouco lineares, voltamos em uma coisa que tinha mais no primeiro disco que eram os vazios. Aqui, por exemplo, tem uma hora que fica só uma poeira de som e a voz passando.
E eu tenho sempre como inspiração para a construção dos improvisos deixar eles como uma parte dentro da música, sabe? Óbvio, os improvisos sempre mudam, mas eu procuro compor o clima que vai ser sempre o mesmo. Então em "Imagem do Amor", o improviso do final tem isso. A música diz que "a imagem do amor não é pra qualquer um", a leitura que eu tenho disso é essa eterna discussão do que é o belo. Eu fiquei imaginando isso, uma coisa deformada, a guitarra e o baixo conduzindo e a batera saindo junto comigo criando essa coisa deformada dentro da música - o tempo fica deformado, o som fica deformado. Fico pensando como se fosse uma coisa picotada, como se eu pegasse a melodia na partitura, cortasse ela em mil pedacinhos, jogasse pro alto e saísse tocando ela do jeito que caiu no chão, sabe? A beleza não óbvia das coisas. No improviso tento partir mais pra esse lado estético da criação do improviso e deixo escala e notas em uma coisa secundária. No palco, o momento vai se repetir, as frases exatas, não."

"Mano Légua"

"A gente tinha uma ideia bem lá atrás de fazer um disco todo inspirado em Exu, acabou não rolando, mas serviu como um pontapé inicial. E "Mano Légua" a Ju compôs como se fosse uma cantiga mesmo. Isso é uma coisa que nós três gostamos de brincar muito na composição, de você compor algo em uma estrutura como se fosse uma melodia antiga recuperada de algum registro perdido.
Tem uma coisa bastante presente na construção do arranjo, a gente procurar trabalhar bem pouco com acorde. Digo assim, toda e qualquer música tem uma harmonia, explícita ou não, no caso, a gente constrói a melodia com linhas horizontais, isso é uma coisa bem africana, uma coisa muito do choro também e as frases dão a harmonia.
A gente faz muito porque eu toquei choro muito tempo e eu tenho uma influência grande do Pixinguinha de fazer os contrapontos na música, tem a função do violão de sete que o Kiko fazia no Bando Afromacarrônico, que ele fazia já com sabor de riff porque tocava guitarra quando era moleque. "Mano Légua" são quatro linhas e tudo vai virando um quebra-cabeça e em algum lugar você encontra a harmonia, ela marca bastante essa característica nossa."

"Angolana"

"Essa eu fiz a melodia toda e mandei pro Kiko, ele fez a letra e depois a Juçara interferiu bastante em uma outras coisas. Não tem nenhuma referência à Angola exatamente, a não ser a inspiração. Quando eu fiz a melodia pensei muito em uns discos antigos do Bonga.
Tem uma coisa da canção angolana que tem uma influência portuguesa, são canções bem melancólicas, bem triste, geralmente em tom menor onde você vê nitidamente a influência portuguesa porque no resto da África você tem muita coisa rítmica, os instrumentos de harmonia também como instrumento de percussão, já na canção angolana tem acordes mesmo, violão, como o fado. Eu compus pensando meio pensando nisso, com essa influência do Bonga.
A letra o Kiko fez inspirada nos nossos movimentos de sair daqui, ir pra turnê e tal, essa sensação do voar, de você sair de casa, viajar pra um lugar que não é seu, um lugar transitório, sabe? Um pouco também de 'qual é o sentido?'. Qual o sentido de tá fazendo tudo isso? Qual é o sentido de sair daqui? Às vezes a gente fica pensando muito nisso."

"Corpo Vão"

"Foi a primeira que tava dentro dessa ideia de falar sobre Exu sem mencionar Exu, de pegar os signos mesmo, falar sobre caminhos, a coisa de andar sem deixar um rastro. Exu tem essa coisa de transformar, do caminho, de destruir pra construir, tem essa imagens que a gente foi inserindo na letra. Essa música acabou ficando com esse sabor de África do norte, África árabe, tem uma notinha ali na escala que dá um pouco essa sensação em algum momento e foi uma música que começou com um riff de guitarra e fui eu que fiz o riff inspirado no Itamar Assumpção.
O Kiko e a Juçara fazem um show com as músicas do Itamar Assumpção e às vezes eu participo, na época era um dos shows que eu ia participar e tava muito com as coisas do Itamar na cabeça, ele tem muito isso de compor em cima dos riffs. Aquela semana eu fiquei ouvindo as músicas, a gente ensaiou, ficou aquela coisa ali e de repente saiu.
Gosto muito disso, é muito raro eu compor com o saxofone. No sax eu tenho muita coisa debaixo do dedo, sabe? A mão acaba indo para um lugar que eu já fui, um lugar que eu já sei. Então para eu encontrar caminhos diferentes tenho o auxílio desses instrumentos que eu não sei tocar muito bem, às vezes pego a guitarra, ás vezes pego cavaquinho, o teclado, pego alguma outra coisa onde eu não tenha vício e começo a tocar."

"Ossanyn"

"Ossanyn é o orixá que tá embrenhado no meio da mata, é o orixá da folha e a folha no candomblé tem a função da cura, de você fazer um remédio, o banho pra purificar. Mesmo no momento de solo ali, ao contrário dos outros solos, não é rasgado, ele tá super dentro da harmonia. Ele não é ríspido, é um momento da cura. Também está dentro desse momento que a gente pega canções com estrutura pequena e cíclica pra desenvolver a coisa da banda, do tocar junto, de muita pergunta e resposta, de criar situações, de parar tudo e ficar só um."

"Toque Certeiro"

"A gente trabalha pouco com o Siba, mas ele é um cara que é uma das poucas unanimidades do grupo, todo mundo é fã dele de muito tempo e ele é um amigo querido. A gente se encontra pouco profissionalmente e esse foi um momento de aproximar um pouco mais, a gente já fez show junto, gravamos uma música dele no primeiro disco e tal, mas a gente queria ter ele mais próximo. Aí o Kiko fez essa melodia inspirado nesse gosto em comum que a gente tem por Gana, highlife, essa coisa da guitarrinha. Fez um pouco pensando nisso, essa coisa da África do Oeste que tem essas levadinhas mais rápidas, uma coisa um pouco mais solar, com influência do Caribe.
Foi engraçado, a gente fez a melodia e aí o Siba entendeu ela meio errado. A primeira parte ele achou que era uma introdução e aí ele não fez letra, no ensaio a Juçara fez um "tará, taratá" ali enquanto ele não fazia a letra, mas na terceira vez isso já ficou na música porque ficou legal. Ela ficou um pouco descolada do resto do disco, mas encontrou o lugar dela no álbum e no show, isso é legal também.
Ela tem essa coisa que a gente faz bastante, eu e a Juçara fazendo a melodia junto, uma coisa que não se usa tanto, mas a gente gosta. Colocar o sax no lugar da voz, a voz no lugar do instrumento e a junção das duas coisas, sabe? O sopro virando quase que um pedal, uma textura da voz, a gente gosta de trabalhar com isso, essa coisa da desconstrução das funções."

"Obá Kossô"

"A letra é uma cantiga de candomblé, nos nossos discos sempre tem alguma. No primeiro disco tem "Ora Ie Ie O", no segundo tem o "Exu" e o "Man Feriman". Essas estruturas cíclicas que são muito pequenas são um prato cheio pra você ficar repetindo mil vezes como em um ritual mesmo. E você cria essa atmosfera de transe, que é o que a gente faz em "Obá Kossô". Ela é completamente amorfa, ela tem uma estrutura meio deslocada. Óbvio, ficou gravada desse jeito, mas quando a gente toca no palco, tem a linha de baixo que segue, mas o Kiko cada hora entra num lugar e isso altera a harmonia da música porque a melodia caí em lugares diferentes da linha do baixo, ela é completamente mutante, não tem muita obrigação."


FAIXAS DISPONÍVEIS:








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